quarta-feira, 20 de agosto de 2014

TRABALHO

Depois das lições, que são sempre agradáveis e edificantes, somos conduzidos a uma oficina de grandes proporções, onde trabalhamos na composição de material de ensino para os jovens de cursos superiores, serviço esse que é sempre orientado por sábios instrutores de nossa nova esfera de ação.

Atendemos, por essa forma à obrigações com imenso proveito, porque cumprimos o dever que nos cabe, preparando-nos, ao mesmo tempo, para tarefas maiores.

Tanta atenção e cuidado deveremos, porém, dispensar ao serviço, que Zacarias, um de nossos colegas mais resolutos, resolveu interpelar, respeitosamente, um dos orientadores, indagando:

- Todos trabalham, como nós, depois da morte do corpo?

- Como não? – respondeu ele sorridente.

- É que – tornou companheiro, acanhado – nos ensinaram na Terra que, depois da morte, somente encontraríamos o repouso eterno, quando bons, e a eterna punição, quando maus.

- É uma ilusão dos homens – esclareceu generosamente o instrutor -, quase sempre interessados em criar artifícios para o engano de si mesmos. A maioria das criaturas encarnadas, nos círculos terrenos, não escondem o desejo vicioso de gozar sem esforço, receber benefícios sem proporcioná-los a outrem e repousar sem servir.

Nesse ponto dos esclarecimentos, sorriu bem-humorado e continuou:

A propósito de semelhante verdade, a maior parte dos meninos que chegam, até aqui, são sempre portadores de enraizados defeitos. Foram muitíssimo mal habituados em casa. Escravizaram-se ao carinho excessivo, ausentaram-se das pequenas responsabilidades e deveres que lhes competiam na organização familiar e, ao serem surpreendidos pela morte, sofrem angustiosamente com a readaptação, porque a vida continua, pura e simples, exigindo do serviço, esforço e boa-vontade de cada um de nós.

Aquelas palavras queimavam-me a consciência. Recordei minha situação antiga. Vi-me, de novo, em casa, reclamando a atenção de todos, sem qualquer resolução de ser útil aos outros. Não sei se acontecia o mesmo a outros companheiros de turma, que, atentos, mas desapontados, escutavam as explicações. Sei apenas que experimentei íntima sensação de vergonha.

Em seguida ao intervalo havido nas observações, o orientador continuou esclarecendo-nos que só os maus e os indiferentes buscam meios de fugir ao trabalho, que o serviço nos é concedido como verdadeira benção de luz e paz. Por fim, exortou-nos a recordar que Jesus, em criança, trabalhava na carpintaria, preparando peças de madeira dando-nos o exemplo de correto aproveitamento do tempo infantil, acrescentando, ainda, que se houvéssemos sido educados, quando nos lares terrestres, no espírito de serviço, não teríamos tanta dificuldade de readaptação à vida espiritual.

Confesso que estou plenamente de acordo com semelhante ponto de vista.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)

TRABALHO

Depois das lições, que são sempre agradáveis e edificantes, somos conduzidos a uma oficina de grandes proporções, onde trabalhamos na composição de material de ensino para os jovens de cursos superiores, serviço esse que é sempre orientado por sábios instrutores de nossa nova esfera de ação.

Atendemos, por essa forma à obrigações com imenso proveito, porque cumprimos o dever que nos cabe, preparando-nos, ao mesmo tempo, para tarefas maiores.

Tanta atenção e cuidado deveremos, porém, dispensar ao serviço, que Zacarias, um de nossos colegas mais resolutos, resolveu interpelar, respeitosamente, um dos orientadores, indagando:

- Todos trabalham, como nós, depois da morte do corpo?

- Como não? – respondeu ele sorridente.

- É que – tornou companheiro, acanhado – nos ensinaram na Terra que, depois da morte, somente encontraríamos o repouso eterno, quando bons, e a eterna punição, quando maus.

- É uma ilusão dos homens – esclareceu generosamente o instrutor -, quase sempre interessados em criar artifícios para o engano de si mesmos. A maioria das criaturas encarnadas, nos círculos terrenos, não escondem o desejo vicioso de gozar sem esforço, receber benefícios sem proporcioná-los a outrem e repousar sem servir.

Nesse ponto dos esclarecimentos, sorriu bem-humorado e continuou:

A propósito de semelhante verdade, a maior parte dos meninos que chegam, até aqui, são sempre portadores de enraizados defeitos. Foram muitíssimo mal habituados em casa. Escravizaram-se ao carinho excessivo, ausentaram-se das pequenas responsabilidades e deveres que lhes competiam na organização familiar e, ao serem surpreendidos pela morte, sofrem angustiosamente com a readaptação, porque a vida continua, pura e simples, exigindo do serviço, esforço e boa-vontade de cada um de nós.

Aquelas palavras queimavam-me a consciência. Recordei minha situação antiga. Vi-me, de novo, em casa, reclamando a atenção de todos, sem qualquer resolução de ser útil aos outros. Não sei se acontecia o mesmo a outros companheiros de turma, que, atentos, mas desapontados, escutavam as explicações. Sei apenas que experimentei íntima sensação de vergonha.

Em seguida ao intervalo havido nas observações, o orientador continuou esclarecendo-nos que só os maus e os indiferentes buscam meios de fugir ao trabalho, que o serviço nos é concedido como verdadeira benção de luz e paz. Por fim, exortou-nos a recordar que Jesus, em criança, trabalhava na carpintaria, preparando peças de madeira dando-nos o exemplo de correto aproveitamento do tempo infantil, acrescentando, ainda, que se houvéssemos sido educados, quando nos lares terrestres, no espírito de serviço, não teríamos tanta dificuldade de readaptação à vida espiritual.

Confesso que estou plenamente de acordo com semelhante ponto de vista.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

ENSINAMENTOS

Naturalmente, você perguntará como se desenvolvem nossos trabalhos escolares e, de antemão, posso responder-lhe que os serviços dessa natureza, em nossa vila espiritual, são quase idênticos aos de um estabelecimento de ensino na Terra.

Temos material didático, em quantidade variada e enorme, inclusive livros e cadernos de exercícios.

O sistema de ação dos professores, porém, é bastante diverso.

Não somente ensinam: guardam, confortam, orientam.

Acho-me, por exemplo, num curso de bom comportamento e retificação sentimental.

Noto que os instrutores não se descuidam da parte intelectual propriamente dita, preparando-nos o conhecimento das condições alusivas à vida nova em que nos encontramos.

Para isso, valem-se das realizações que já edificamos na Terra. Não nos perturbam com revelações prematuras, nem com demonstrações suscetíveis de alterar o equilíbrio de nossas emoções. Tomam, como ponto de partida, as experiências que já adquirimos e ajudam-nos a desenvolvê-las, gradualmente, sem ferir-nos os raciocínios mais agradáveis.

Tenho a impressão de que os orientadores daqui recebem-nos os conhecimentos terrestres como sementes dos conhecimentos celestiais. Em razão disso, não nos esmagam com a exposição maciça da sabedoria de que são portadores. Cercam-nos de cuidados e carinhos especiais, para que as nossas faculdades superiores germinem e cresçam.

O que assombra, porém, é a vigilância paternal que os abnegados orientadores desenvolvem junto de nós, no sentido de despertarem nossas idéias mais elevadas.

Nesse propósito, curso de introdução às aulas superiores está cheio de temas relativos à melhoria espiritual que nos compete atingir. Longas horas são aproveitadas no exame atencioso de interrogações como estas:

- Que pensamos acerca do Cristo?

- Como recebemos os favores da Natureza?

- Que fazemos da vida? Quais os objetivos de nosso esforço pessoal?

- Que concepção alimentamos, relativamente ao tempo e à oportunidade?

- Quais são as diretrizes dos nossos pensamentos?

- Estaremos utilizando para o bem os instrumentos e as possibilidades que o Senhor da Vida nos confiou?

- Semelhantes temas, examinados inicialmente por nossos professores, em proveitosas aulas de renovação espiritual, dentro das quais nos confessamos uns aos outros através de comentários serenos e francos, fazem luz sobre nós mesmos, revelando-nos aos olhos da extensão de nossas necessidades, pelo egoísmo, pela indiferença e ociosidade em que temos vivido desde muito nos círculos terrestres.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

COMPANHEIROS

Depois de julgado apto para a nova tarefa, passei a figurar numa turma de vinte e oito alunos, todos recém chegados da Terra.

Iniciando-me nas lições, tive oportunidade de conhecer vários desses colegas. A maioria permanente na mesma posição de luta mental em que me encontro.

As saudades do lar distante absorvem-nos a quase todos.

Recordando os ensinamentos de equilíbrio que recebi de vovó Adélia e tia Eunice, compreendi logo que não deveria chorar, mas nem todos os companheiros procedem assim.

No dia imediato à nossa primeira aula, quando o professor determinou que descansássemos ao recreio, o Abelardo, aluno mais novo de nossa classe, longe de aceitar-nos o convite para um passeio, postou-se na porta de saída, a chorar copiosamente.

Miguelino, o mais experiente de mós, aproximou-se dele e perguntou:

- Então, Abelardo, que é isso?

O interpelado não respondeu, continuando a chorar, angustiadamente.

- Já sei – tornou Miguelino, de bom humor -, é saudade de casa, anseio de retornar, não é mesmo?

Sentindo-se compreendido, o companheirinho voltou-se e desabafou:

- Sim, estou com saudades de mamãe, muitas saudades de mamãe!...

Aquelas palavras, pronunciadas com tanta mágoa, cortaram-me o coração. Eu estava sofrendo a mesma dor, e, lembrando-me de casa, custei a dominar as lágrimas que tentavam cair.

Miguelino percebeu que todos nós assistíamos à cena, aflitos e saudosos, por nossa vez. Por isso mesmo, dando a entender que se dirigia a todos nós que nos emocionávamos tanto, explicou, paciente:

- Todos sentimos falta dos entes queridos que permanecem no mundo. A dor da distância nos atinge em comum. Entretanto, como poderíamos auxiliar os que ficaram, permanecendo inconformados? Resolveríamos tão grande problema, chorando sem consolo? Afinal de contas, não somos os únicos em semelhante prova. Existem aqui alguns milhares de jovens nas mesmas condições. Sofreram, como eu, a separação de criaturas que lhes eram profundamente amadas. Experimentaram a saudade, a aflição de voltar. Mas compreenderam, enfim, que nenhuma batalha pode ser ganha sem bastante valor moral, e lutaram consigo mesmos pela posse de mais valiosa compreensão. Além disso, não devemos esquecer que os nossos também virão. Precisamos preparar-nos convenientemente, desenvolvendo a nossa capacidade de auxílio, para sermos úteis a eles, no momento oportuno, Peçamos, pois, ao Supremo Pai coragem e forças.

Aquela exortação amiga penetrou-nos fortemente o espírito.

Abelardo enxugou os olhos, sorriu com esforço e, em breves instantes, nos reuníamos sob a copa de grandes árvores, consolados e entregues a interessantes e úteis conversas.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O PARQUE

No dia seguinte, muito cedo, tia Eunice conduziu-me à grande instituição.

O caminho oferecia suave encanto aos olhos e indizível contentamento à imaginação.

Árvores floridas enchiam a atmosfera de delicioso perfume. Observei que havia atividade em torno de todas as residências por onde passávamos, mas raramente enxergava uma ou outra criança.

Comentando a minha estranheza, respondeu tia Eunice que a vila se dedicava quase que exclusivamente aos trabalhos de reeducação de meninos e meninas, procedentes da Terra, mas que esses jovens, na maior parte, permaneciam internados no Parque, solucionando os problemas que lhes são próprios. Informou-me, ainda, de que somente depois do indispensável aproveitamento espiritual podem as crianças voltar a Terra ou buscar as esferas superiores. Esclareceu que nem todos os pequenos que “morrem” no mundo são obrigados a transitar por aqui, em vista de existirem meninos de grandes virtudes, os quais dispensam qualquer atividade de retificação. Contudo, a maioria das criança que chegam da Terra são portadoras de pequenos vícios, reclamando cuidado e ensinamento.

Enquanto titia falava, corei de vergonha, recordando a preguiça e a vaidade de que eu gostava tanto.

Após agradabilíssima caminhada, chegamos afinal.

O Parque é lindo.

Fui confiado à assistência de um santo velhinho, que se incumbe das crianças recém-chegadas aqui. Como não me encontrava, ainda, suficientemente seguro de mim mesmo, descansei vários dias, a distância do esforço mais ativo.

Dispus, assim, de mais tempo para examinar o vasto instituto.

Há muitas edificações, situadas entre copadas árvores. Verifiquei grande profusão de flores. Muitas são diferentes das que conhecemos em jardins terrestres e algumas delas têm a propriedade de reter a luz do dia, semelhando-se, de noite, a pequenas estralas radiantes, caídas do céu.

O vento, muito manso, está sempre impregnado de aromas. E não existe um só edifício sem flores em derredor.

Há estudos e trabalho intensos.

O Parque é subdividido em diversas escolas. Colaboram aqui muitos professores e professoras; e tantos meninos aqui se encontram localizados, que ainda não pude calcular o número exato de todos eles.

Vejo-os de várias idades e tamanhos, com exceção das crianças que vieram do plano físico com menos de sete anos, para as quais, segundo me disse um novo amiguinho, há lugares e cursos especiais.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

EM PRECE

Na primeira noite que se seguia às minhas melhoras, permaneci em companhia de vovó e tia Eunice, no salão maior da residência.

Lindo luar banhava o jardim, lá fora, e a lâmpada de claridade branda, no interior, semelhava-se a enorme pérola em forma de coração.

Vovó, que olhava o relógio com atenção, convidou-nos à prece, explicando haver chegado o momento justo.

Reunimo-nos em torno de grane mesa, em cujo centro repousava grandioso jarrão com flores vermelhas, quase iguais aos cravos que conhecemos aí.

Findos alguns minutos de silêncio, para os quais vovó Adélia me pediu os melhores pensamentos, tia Eunice fez linda oração, em voz alta, rogando a Jesus nos amparasse e esclarecesse como sempre, ajudando-nos a ser dignos da benção do Eterno Pai.

Terminada a rogativa, vasto espelho próximo começou, com grande assombro para mim, a iluminar-se de maneira maravilhosa, como se recebesse de zona desconhecida vigorosa projeção de luz dourada. Em breves momentos, surgia ali a imagem de uma senhora cativante, falando conosco.

Vovó e titia passaram a ouvi-la, atentas, enquanto não cabia em mim mesmo de admiração.

Vencida a surpresa do primeiro minuto, passei a escutá-la, fascinado pela beleza das lições e dos comentários, cheios de sabedoria, embora não conseguisse penetrar na intimidade de todos os assuntos expostos.

Suas disposições de otimismo eram, porém, admiráveis e contagiosas. Falava-nos, através de um aparelho de televisão, como se estivesse em pessoa, a três passos de nós, com notável serenidade e excelente expressão de bom ânimo.

Além das elucidações valiosas que nos trazia, comentou com mais calor, a nossa necessidade de entendimento ante os desígnios superiores, com a firme decisão de nos afeiçoaremos a eles, dentro do espírito de serviço. Esclareceu sensatamente que tudo nos ocorre para o bem, desde em que não estejamos na posição lamentável das criaturas rebeldes e caprichosas.

Francamente, ouvindo-a, senti-me encorajado, bem disposto. Tive a idéia de que a “visitadora distante” irradiava eflúvios de paz que me reconfortavam profundamente o coração, multiplicando-me as esperanças no futuro sublime.

Naqueles reduzidos minutos, senti que a minha fé cresceu muito, intensificando, dentro de mim mesmo, o otimismo e a confiança.

Quando se apagou a luz dourada no espelho cristalino, tia Eunice informou-me de que, duas vezes por semana, os lares da vila entravem em contato com elevados instrutores e governantes do nosso novo plano de trabalho, por intermédio dos aparelhos de televisão e radiofonia.

Não cabia a mim de alegria confiante.

Voltando ao repouso, vovó Adélia notificou-me de que, no dia imediato, seria eu recolhido ao Parque dos Meninos, de onde escrevo exata carta para você.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

NOTÍCIAS

Passando ao compartimento próximo, uma bonita sala-de-estar, reparei, surpreendido, num retrato de mamãe, de grandes proporções, que, a notar pelas aparências, era guardado ali com imenso carinho.

Comoveu-me muitíssimo aquela valiosa lembrança, colocada num dos ângulos da sala.

Que saudades enormes transbordaram de meu coração!...

Abracei-me ao retrato, ansiosamente.

Vovó Adélia, contudo, embora tivesse os olhos rasos d’água, dirigiu-me a palavra, com energia adoçada de ternura:

- Carlos, não se emocione! Recorde sua necessidade de equilíbrio sentimental. Precisamos colaborar com o médico e, para isso, lembramo-nos de sua mãe com alegria!

Reprimi a inquietação que parecia invadir-me novamente, tranqüilizei a mim mesmo, recompus a fisionomia e procurei sorrir, satisfeito. Vovó e Tia Eunice sorriram também, apreciando-me a boa vontade em obedecer-lhes às recomendações.

Apesar de minha inexperiência, ensaiei a modificação do quadro emotivo, perguntando:

- Vovó, a senhora tem visitado mamãe?

- Sim, sempre posso – esclareceu ela, sorridente, por observar-me o propósito de renovação, e acrescentou: - lamento apenas que Arlinda não possa compreender, por enquanto, as verdades espirituais. Tem, por isso, perdido muito tempo, dando-se a muitas atividades inúteis.

Sim, vovó falava com indiscutível acerto.

Ah! Se todos soubéssemos, aí na Terra , como é grande e formosa a vida!

Esse pensamento encheu-se de esperança nova. Meus sentimentos ergueram-se mais alto e, abraçando nossa querida avozinha, indaguei:

- A senhora acredita, vovó, que eu ainda possa ser útil a mamãe?

Os olhos de nossa admirável velhinha encheram-se de alegria. Abraçou-me, por sua vez, e exclamou:

Como não, meu filho? Depende de sua boa vontade, de seu esforço nos serviços de preparação. Quando chegar ao Parque dos Meninos, não procure o descanso antes do trabalho e receberá, muito em breve, o júbilo de auxiliar, não apenas a mamãe, mas a muita gente.

Elevando com a resposta e interessado em saber mais de meu novo ambiente, fiz interrogações quanto ao paradeiro de vovô Antônio e de tio Álvaro, sobre os quais sempre se referia mamãe com grande estima. Faltava a presença deles naquela casinha cheia de amor.

Vovó Adélia, porém, escutou-me e ficou muito triste. Seus olhos estavam cheios de lágrimas que não chegavam a cair.

Esperava-lhe os informantes, quando tia Eunice se adiantou e disse:

- Carlinhos, por enquanto você não pode receber os esclarecimentos que deseja. Seu vovô e seu tio ainda não puderam chegar até aqui. Mais tarde, saberá tudo.

Ambas, todavia, mostraram-se tão acabrunhadas, que procurei mudar de assunto, recordando o ensino de mamãe de que nunca devemos prosseguir em conversações que sejam desagradáveis a outras pessoas. Creio, porém, que vovô Antônio e tio Álvaro não vão bem, onde se encontram.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A VILA

Durante alguns dias permaneci no leito de convalescente, combatendo, sob o carinho dos familiares, as impressões nocivas que me dominavam o pensamento.

Antoninho, nosso primo, não se demorou mais que um dia ao meu lado. Estava em regime de internato, no Parque dos Meninos, e não devia adiar o regresso aos estudos. O médico, porém, visitou-me todos os dias, no espaço de duas semanas, até que me retirei do quarto, melhorado e bem disposto, apesar de enfraquecido.

Vovó Adélia e Tia Eunice, visivelmente satisfeitas, acompanharam-me ao exterior, amparando-me nos primeiros passos.

Oh! Que alegria!...

Só então percebi que ambas residem numa casa deliciosa e confortável.

Após atravessar pequeno corredor, cheguei a espaçosa sala, bem mobiliada, parando, admirado, na porta cheia de luz, que comunicava com o exterior.

Novo mundo descortinava-se à minha vista.

A paisagem ambiente era bela e prodigiosa. Bonitas casas, semelhantes de algum modo às nossas, apesar de serem muito mais lindas, alinhavam-se, de espaço a espaço, com graça e encanto. Todas elas cercavam-se de pequenos ou grandes jardins, ligados ao fundo por arvoredo agradável aos olhos.

Concluí que os vegetais frutíferos mereciam, em toda a parte, o mesmo carinho dispensado à flores.

Bandos de aves, de penugem brilhante, vagueavam alegremente nos ares.

Na atmosfera pairava uma tranquilidade que não tive ensejo de conhecer na Terra. Respirei, a longos sorvos, o ar puro e leve.

A residência de vovó Adélia está rodeada de flores diversas, predominando as de cor avermelhada, o que empresta ao jardim um aspecto de permanente alegria. Disse vovó que tia Eunice foi organizadora da plantação, fazendo a escolha das flores cultivadas.

Você, naturalmente, desejaria saber se são iguais às que possuímos na Terra. Sim. Muitas parecem com as rosas, cravos e miosótis que aí deixei, mas grande parte mostra diferenças, que não me será possível descrever. Entre o jardim e o pomar da casa da vovó, por exemplo, há dois caramanchões, cobertos com uma trepadeira cujas sementes eu gostaria de enviar a mamãe. Essa planta delicada projeta caprichos e compridos fios, cobertos de folhas verde-escuro, entre as quais desabrocham pequeninas e abundantes coroas de pétalas brancas, pintalgadas de rubro, as quais exalam delicioso aroma. Aliás, os fios de folhas e as flores são tão perfumados e belos que não encontro recursos para comparação.

Para se franco a você, nunca supus houvesse lugar de tamanha beleza, depois da morte. Ante as minhas demonstrações de assombro, esclareceu-me vovó que outras regiões existem, muito mais lindas onde apenas podem penetrar as almas santificadas que utilizaram toso o tempo da existência terrestre na prática do bem.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)

O MÉDICO

Ainda não havíamos terminado as expansões de carinho e alegria, no reencontro, quando o médico esperado chegou.

Tia Eunice foi recebê-lo e trouxe-o á câmara.

Bem-humorado e bem disposto, ele distribuiu saudações com muita alegria.

Examinou-me atenciosamente, aplicou-me raios de luz, acionando pequenino aparelho que não sei descrever, e, em seguida, passou-me a mão direita, em silêncio, muitas vezes, sobre o peito e a cabeça, observando eu que seus dedos se desprendiam faíscas de luz azulada e brilhante.

Terminadas essas operações, levadas a efeito diante de todos os nossos, entrou a conversar, satisfeito e otimista, dando-me a impressão de que se achava muito mais preocupado em dar-me idéias novas que remédios.

Não me perguntou pelo clínico que me tratava em casa, não se interessou visivelmente por minha garganta dolorida, nem fez qualquer indagação que me pudesse transportar o pensamento para a situação passada.

Com habilidade, compeliu-me a esquecer a esquecer a dor e a aflição, distraiu-me com assuntos muito interessantes.

Perguntou-me que profissão teria escolhido na Terra, se continuasse entre os espíritos encarnados, e, quando lhe disse algo do meu pendor para a avaliação, começou a discorrer de modo tão fascinante sobre o progresso da ciência de voar, que me senti francamente outro, despreocupado das idéias de moléstia e apego inferior ao corpo físico que abandonara.

Falava ele como experimentado professor de navegação aérea.

Ouvia-o, por isso mesmo, com crescente assombro.

Depois de inteligente exposição sobre o tema que tanto me interessava, assegurou-me que conhece o nosso Santos Dumont, prometendo-me outras palestras sobre a aviação, na primeira oportunidade.

Percebendo que o bondoso médico ia colocar ponto final à conversação, arrisquei-me a perguntar, absolutamente esquecido de minha enfermidade:

- Doutor, o senhor acredita que poderei continuar estudando aqui?

- Como não? – respondeu, contente – ninguém precisa interromper o serviço de educação própria, por se haver privado do corpo de carne terrestre. Espero vê-lo animado e fortalecido, em breve tempo, para estudar e adquirir conhecimentos novos.

Essas palavras enchiam-me de estímulo e satisfação.

Ao despedir-se, recomendou que eu fosse matriculado no Parque dos Meninos, onde teria os benefícios que me eram indispensáveis, no que vovó Adélia e Tia Eunice aquiesceram, agradecidas.

Quando o médio se foi notei que deixara de escutar os gritos de mamãe e que as dores haviam desaparecido inexplicavelmente.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

FAMILIARES

Enquanto aguardava o médico, Tia Eunice, em determinado instante, avisou-me de que iria ao interior buscar os familiares, e saiu, deixando-me entregue aos pensamentos novos que me invadiam a cabeça.

Decorridos alguns minutos, abriu-se a porta e nossa tia chegou acompanhada por outras pessoas.

A princípio, julguei que fossem muitas, mas eram duas apenas – vovó Adélia e primo Antoninho.

Vovó prendeu-me atenção ,mais fortemente. Não estava trêmula, nem curvada. Pareceu-me muito mais moça, alegre e forte. Seus olhos, serenos e lúcidos, irradiavam aquela mesma bondade de outros tempos.

A surpresa de vê-la, junto de mim, enchia-me de encantamento e satisfação.

Que alívio!

Lembra-se de quando vovó se retirou da residência, muito mal, para casa de saúde?

Desde então, jamais a vimos.

Mamãe anunciou-nos então a morte da santa velhinha, sem permitir que a seguíssemos, na grande viagem que a levou a efeito para a derradeira visita.

Freqüentemente, ambos comentávamos as grandes saudades que nos deixara vovó. Ela sempre nos assistira com excessiva ternura. Dominava-nos com amor e bondade. Perdoava-nos todas as faltas. Poderá você aliviar a alegria que senti, vendo-a aproximar-se?

Ao lado dela, estava Antoninho, que reconheci, de pronto. Nosso primo havia igualmente “morrido”, em hospital distante de nós. Pousou os olhos afetuosos e doces em mim, tranqüilizando-me o coração...

Verdadeira torrente de perguntas atravesso-me o cérebro naqueles momentos rápidos.

Muitas vezes ouvira dizer, aí na Terra, que após a morte do corpo seríamos conduzidos ao Céu ou ao Inferno. O que eu via, porém, era a continuação da paisagem familiar, querida e confortadora. Vovó, Tia Eunice e Antoninho estavam ali, mais vivos que nunca, diante de mim, desfazendo nosso velho engano de que houvessem desaparecido para sempre na morte.

Nossa carinhosa velhinha e o primo abraçaram-me, sorridentes.

Vovó chorou de alegria ao beijar-me, aconchegando-me ao colo, como antigamente.

Perguntou-me por todos. Lamentou não ter podido acompanhar minha vinda, no que foi substituída por Tia Eunice, e declarou que visitaria mamãe na primeira oportunidade. Indagou, bondosa, se você e eu ainda éramos aqueles mesmos pequenos endiabrados que lhe escondiam os óculos para ganhar brinquedos e merendas.

Amparando-me nos braços de vovó, tão carinhosa e tão boa, senti muitas saudades de mamãe e chorei bastante.

Nossa querida velhinha, porém, consolou-me, explicando que, um dia, mamãe e vocês virão também para o nosso novo lar.

(Livro: Mensagens do Pequeno Morto - Psicografia de Francisco C. Xavier - Espírito Neio Lúcio)